— Por quê? — perguntou a boneca. — Para mim dinheiro não tem importância nenhuma. Dou o desprezo. . .
— Para as bonecas não terá, mas para os homens tem muitíssima, porque o dinheiro é uma coisa que se transforma em tudo quanto eles desejam. Se eu tenho um pacote de dinheiro, posso transformá-lo numa casa, numa vaca de leite, num passeio à Europa, num terreno, numa porção de ternos de roupa, numa confeitaria inteira de doces, num automóvel — em tudo quanto eu queira. Daí vem a importância do dinheiro e a fúria dos homens para apanhar a preciosa substância. Quem tem uma casa, tem uma casa e nada mais; mas quem tem dinheiro tem o meio de ter tudo quanto imagina. O dinheiro é uma substância mágica que existe. Em vista disso, vou apresentar ao respeitável público a Senhora QUANTIA, que é a dama mais orgulhosa da cidade da Aritmética, pelo fato de só lidar com dinheiro. A Senhora QUANTIA é a chefe do "banco" mais importante do mundo, que é o FMI.
Visconde foi até a sala, fazendo mil salamaleques, de lá trouxe pela mão a grande dama.
— Respeitável público! — disse ele comovido. — Tenho a honra de introduzir a Ilustríssima
Senhora Dona Quantia, a grande dama que só lida com dinheiro.
Dona Quantia era um poço de orgulho. Veio de óculos escuros e cabeça alta, olhando para todos com grande insolência. Estava vestida duma fazenda feita de notas de 500 euros e trazia colar, cinto e pulseira de moedas. Em seu peito havia, bordado a fio de ouro, um sinal assim: $, que é o sinal do dinheiro. Toda ela tilintava: tlim, tlim, tlim, tlim.
— Já sei — cochichou Emília ao ouvido da menina. — Essa "Numera" que só lida com dinheiro é filha da outra, quer ver? — E criando coragem gritou para a emproadíssima dama:
— A senhora tem os traços de Dona Quantidade. Vai ver que é filha dela.
A grande dama mirou a boneca de alto a baixo e dignou-se a responder:
— Sim, espirrinho de gente, sou filha da Quantidade; mas enquanto minha pobre mãe lida com todas as coisas que existem, eu só lido com dinheiro. Cada país tem o seu dinheiro, e vocês no Brasil tiveram o mesmo dinheiro do velho Portugal. A unidade do dinheiro no Brasil é o REAL — a menor de todas as unidades de dinheiro do mundo. Mas o dinheiro do Brasil mudou muitas vezes de nome e já foi cruzeiro, cruzado, réis, cruzado novo, ...... E há mais de vinte anos veio o REAL, e as velhas moedas foram para as coleções dos numismatas.
— Que bichos são esses? — indagou Pedrinho.
— Numismata — explicou Dona Quantia — é o sujeito que coleciona moedas; e a arte de colecionar moedas se chama Numismática. Havia antigamente moedas feitas de ouro....tudo brilhava...ah, era muito glamour e eu amava!! Mas depois, passaram a fabricar moedas com cobre, que com o tempo ficavam verdes de azinhavre. Foi uma limpeza desaparecerem essas imundícies.
— É, mas quando hoje aparece um pobre bem pobre, a gente bem que sente falta das moedinhas de cobre — observou Emília.
— Por quê? — indagou Dona Benta, admirada.
— Porque quando o pobre é bem pobre, dos bem sujinhos, a gente tem dó de..... - Emília foi interrompida pela Dona Benta que sabia que coisa boa não sairia das palavras da boneca de pano .
Dona Benta, aliviada, trocou um olhar com o rinoceronte, como quem diz: Já se viu que diabinha?
Dona Quantia continuou: — Hoje a moeda menor do Brasil é a de 1 centavo. Vem depois a de 5,10,25, 50 centavos. Em seguida vem a de 1 real.
— E depois vêm as "notas"! — berrou Pedrinho, que era muito entendido no assunto e possuía uma velha nota de 10 mil-réis.
— As notas, ou cédulas, do Brasil — continuou Dona Quantia — são de 2,5,10, 20, 50, e 100 reais . As cédulas são fabricadas na Casa da Moeda e depois os bancos se encarregam de fazer a distribuição do dinheiro....
— E como se escreve a moeda do Brasil? — quis saber Narizinho.
Nesse momento entraram quatro figurões muito interessantes. Um, mascava chicletes, usava boné na cabeça e tinha o pescoço cheio de colares dourados, parecia o rei do mundo. Dois guris usando camisetas de bolinhas vermelhas. E o outro era um sujeito magrinho e com roupa amarrotada.O Visconde explicou: — Eles representam a unidade monetária do Brasil.
Emília deu uma gargalhada gostosa. — Incrível! — disse ela. — Para representar 1 real, que é a quantidade de dinheiro mais pulga que existe no mundo, Visconde teve de mobilizar quatro figurões, um rapper reluzente, outro todo amarrotado, e dois garotos vestindo camisetas de bolinhas; Bem diz Tia Nastácia: quanto mais magro, mais cheio de pulgas. . .
O Real ficou chateado com as palavras de Emília, e o Visconde disse:
— A unidade monetária do Brasil de hoje escreve-se assim: R$ 1,00 e lê-se UM REAL. Os dois rapazes com camisetas de bolinhas representam os zeros, os quais são os CENTAVOS, isto é, CEM AVÓS, porque o REAL se divide em cem pedacinhos, ou avós, ou seja precisamos de cem moedinhas de um centavo para ter um real. É uma moeda decimal, como existem em moedas adotadas em outros países, como o Dólar nos Estados Unidos; o Euro em Portugal; a Libra Esterlina na Inglaterra...
— Antigamente o Brasil usava O Mil-Réis — disse Pedrinho — mas eu acho que tinha o defeito de exigir muitos zeros. Era zero que não acabava mais. . .
— Isso mesmo. Para escrever cem contos, empregavam-se 8 zeros, além dos dois pontos indicativos de contos e do meu pobre cifrão colocado lá atrás — um desaforo!
Dona Quantia ajeitou os óculos escuros no colar e indagou com voz entediada: — Querem mais alguma coisa?
— Queremos que a senhora nos arranje alguns milhares de reais — disse Pedrinho.
— Dinheiro ganha-se — respondeu ela. — Se quer tanto dinheiro, cresça, trabalhe e ganhe-o. Além disto, gaste-o com sabedoria.....É uma pena que hoje em dia já não posso mais ter escravos por dívidas não pagas.....eu adorava cobrar altos juros para depois ter escravos....era tão bom...disse dona QUANTIA dando uma gargalhada assustadora...quando retirava-se majestosamente amparada pelo braço do Visconde.
Todos se entreolharam.
— Já viram emproamento maior? — observou Emília.
— Essa bruxa, só porque serve para indicar dinheiro, já está assim que ninguém a atura. Imaginem se em vez de indicar dinheiro ela possuísse dinheiro de verdade aos milhares de reais, dólares ou melhor ainda em Libras Esterlinas, que valem muito mais.... ! Fedorenta. . .
Na noite desse dia as crianças só sonharam com os artistas da cidade da Aritmética.
Referência:
LOBATO, José Bento Monteiro. A Aritmética da Emília (1935). Adaptado por Marcia Regina Godoy




Nenhum comentário:
Postar um comentário