Richard Thaler,
ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2017, no final da década de 1960,
escreveu um dos primeiros estudos sobre o valor da vida. A tese de Thaler
"The Value of Saving A Life: A Market Estimate" tinha como objetivo responder uma
pergunta, aparentemente simples: quanto vale uma vida humana? . Para
respondê-la, Thaler perguntou a 904 pessoas : “Quanto você pagaria para eliminar uma doença que contraiu e
que possui uma taxa de mortalidade de 1 em 100 mil?” e “Quanto teria que pagar para você aceitar fazer algo
(participar de ensaio clinico ou trabalhar em condições de risco) que o(a) colocaria com uma chance de morrer de 1
em 100 mil?”.
Nas entrevistas surgiu um
interessante achado: os valores que os entrevistados atribuíam para
evitar/enfrentar risco eram bastante discrepantes. Thaler imaginava que
os valores seriam similares, pois as probabilidades de morte eram iguais, mas
não foram. Os entrevistados diziam estar dispostos a pagar US$ 2 mil para
evitar a morte por uma grave doença. Contudo, para assumir o mesmo risco de
morte, desejavam receber US$ 500 mil para aceitar um emprego
arriscado. Os achados de Thaler sugerem que, de modo geral, os
indivíduos exigem um prêmio de risco maior quando se eleva a sua chance de
perda/morte do que aquele quando ocorre uma redução de chance de ganho. Do
mesmo modo, em 1979, Kahneman e
Tversky identificaram uma assimetria entre a aversão ao risco para
prospectos positivos e busca do risco para prospectos negativos; e que uma
perda tem cerca de duas vezes e meia o impacto de um ganho da mesma magnitude. Essa contradição instigou Thaler e outros pesquisadores, tais como Kahneman
e Tversky, a investigar aspectos comportamentais envolvidos na tomada de
decisão, dando início ao surgimento da área de economia comportamental.
O
estudo de Thaler e Rosen foi publicado, em 1976, no National Bureau of
Economic Research. Os pesquisadores examinaram os salários pagos a 907
trabalhadores americanos em 37 profissões e também analisaram os dados
sobre mortalidade laboral. Os pesquisadores estimaram o número de mortes
esperada em cada ocupação, baseada na distribuição etária. Por exemplo, em
1967, a probabilidade de morte de um trabalhador branco de 35 anos era de 2 em
1.000.
Contextualizando para realidade brasileira, em 2015, no setor de setor de eletricidade e gás apresenta a mais alta probabilidade de morte de trabalhadores, sendo que anualmente ocorrem 26,23 mortes a cada 1.000 trabalhadores. Diante, deste maior risco, neste setor são observados os mais altos salários (PEREIRA et al, 2018).
Contextualizando para realidade brasileira, em 2015, no setor de setor de eletricidade e gás apresenta a mais alta probabilidade de morte de trabalhadores, sendo que anualmente ocorrem 26,23 mortes a cada 1.000 trabalhadores. Diante, deste maior risco, neste setor são observados os mais altos salários (PEREIRA et al, 2018).
Além das entrevistas, Thaler e Rosen determinaram
os diferenciais salariais entre ocupações e indústrias nas quais os
trabalhadores estavam inseridos. Através de análise de regressão, eles
verificaram que um emprego no qual havia risco de acidentes ou de morte pagava
a um trabalhador americano US$ 3,52 a mais por semana do que um emprego sem
risco. Os pesquisadores verificaram que a migração de um emprego arriscado para um não arriscado reduzia o
salário em US$ 176 (US$ 1,3 mil em valores de hoje) anuais. Para calcular o
valor de salvar uma vida, Thaler e Rosen multiplicaram o valor do
coeficiente da regressão (3,52) x 50 semanas x 1.000, e assim surgiu
um método prático para encontrar o custo de uma vida. Desta forma, Thaler
e Rosen conceituaram o Valor Estatístico da Vida (VEV
ou VSL), um cálculo que multiplica o percentual de trabalhadores em risco pelo
valor pago a mais nos salários.

O método de Thaler e Rosen foi replicado por inúmeros pesquisadores, inclusive brasileiros, como os nossos colegas da FURG, Rafael Pereira e Cristiano Oliveira (disponível aqui), que calcularam que no Brasil o VSL vale entre R$3,758 milhões e R$4,690 milhões.
No âmbito internacional, Kip Viscusi,
um professor de direito e economia da Universidade de Harvard, destaca-se pela
elevada quantidade de estudos sobre VSL em que ele é autor ou co-autor. Na
maioria dos estudos de Viscusi é empregada metodologia similar a de Thaler, de
forma a identificar o prêmio, diferencial salarial, pago por empregos
arriscados.
O VSL também pode ser calculado
através de inquéritos e observação do comportamento. De modo geral, nos
inquéritos são apresentadas várias situações hipotéticas nas quais o
entrevistado responde o quanto estaria disposto a pagar para reduzir suas
chances de morte ou de contrair alguma enfermidade ou de perda/ganho
financeiro. Por exemplo, um pesquisador pode entrevistar indivíduos
para verificar quanto eles estariam dispostos a pagar para mudar
instrumentos de segurança, tais como cintos de segurança ou estabilidade de um
veículo, para diminuir o risco de morte. Neste sentido, Thaler (1974)
calculou que um indivíduo poderia pagar anualmente $8,80 dólares para ter
cinto de segurança. já que esse reduz a probabilidade de morte em caso de
acidentes. ^
O leitor interessado no assunto deste post pode aprofundar o conhecimento sobre o VSL, pois existem várias abordagens para mensurá-lo. Entre elas destacamos a abordagem do capital humano, que é a mais comum, onde é mensurado o diferencial salarial ou prêmio de risco de diferentes ocupações. Nessa abordagem, por exemplo, pode ser realizado inquérito onde os entrevistados respondem o quanto hipoteticamente pagariam para reduzir o risco de morte ou ainda o pesquisador pode utilizar dados do mercado de trabalho para mensurar as diferenças salariais entre diversas ocupações e indústrias.
Qual é o valor estatístico da vida?
O termo valor estatístico da vida é amplamente utilizado em economia e regulação para denotar não o valor de uma vida em particular, mas uma métrica que auxilia na tomada de decisão, mostrando o quanto uma sociedade ou individuo deveria estar disposto a gastar para prevenir uma morte estatística ou salvar uma vida (ANDERSON, 2011) .
As estimativas do VSL variam entre os países. Em 1990, Viscusi estimou que, nos Estados Unidos, o valor estatístico da vida era de $5 milhões. Frank Ackerman e Lisa Heinzerling realizaram uma revisão sistemática da literatura e verificaram que o VSL varia entre 390 e 120 vezes o valor do PIB per capita. Alguns autores, arbitrariamente, assumem que o VSL é 100 vezes o valor do PIB per capita. (Jamison, Sachs et al. 2001; WHO 2005).
Após calcular o VSL pode-se mensurar o valor de cada ano de vida (VSLY), devendo se levar em consideração que a expectativa de vida do local e aplicar uma taxa de desconto de 3% ao ano (Moore e Viscusi, 1988)**. A diretriz de Avaliação Econômica de Tecnologias de Saúde adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil recomenda a utilização da taxa de desconto de 6% ao ano.
O leitor interessado no assunto deste post pode aprofundar o conhecimento sobre o VSL, pois existem várias abordagens para mensurá-lo. Entre elas destacamos a abordagem do capital humano, que é a mais comum, onde é mensurado o diferencial salarial ou prêmio de risco de diferentes ocupações. Nessa abordagem, por exemplo, pode ser realizado inquérito onde os entrevistados respondem o quanto hipoteticamente pagariam para reduzir o risco de morte ou ainda o pesquisador pode utilizar dados do mercado de trabalho para mensurar as diferenças salariais entre diversas ocupações e indústrias.
Qual é o valor estatístico da vida?
O termo valor estatístico da vida é amplamente utilizado em economia e regulação para denotar não o valor de uma vida em particular, mas uma métrica que auxilia na tomada de decisão, mostrando o quanto uma sociedade ou individuo deveria estar disposto a gastar para prevenir uma morte estatística ou salvar uma vida (ANDERSON, 2011) .
As estimativas do VSL variam entre os países. Em 1990, Viscusi estimou que, nos Estados Unidos, o valor estatístico da vida era de $5 milhões. Frank Ackerman e Lisa Heinzerling realizaram uma revisão sistemática da literatura e verificaram que o VSL varia entre 390 e 120 vezes o valor do PIB per capita. Alguns autores, arbitrariamente, assumem que o VSL é 100 vezes o valor do PIB per capita. (Jamison, Sachs et al. 2001; WHO 2005).
Após calcular o VSL pode-se mensurar o valor de cada ano de vida (VSLY), devendo se levar em consideração que a expectativa de vida do local e aplicar uma taxa de desconto de 3% ao ano (Moore e Viscusi, 1988)**. A diretriz de Avaliação Econômica de Tecnologias de Saúde adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil recomenda a utilização da taxa de desconto de 6% ao ano.
VSL e Políticas Públicas
Muitas agências reguladoras utilizam o
VSL na tomada de decisão na avaliação de políticas públicas. Nos Estados
Unidos, o Departamento de Transportes, por exemplo, estima em US$ 6,2 milhões
(R$ 24,7 milhões) o valor de uma vida humana para contrapor aos custos dos
novos itens de segurança. A FDA, que regula alimentos e medicamentos, impõe um
limiar de US$ 9,5 milhões na avaliação econômica de medicamentos. A EPA,
agência ambiental dos Estados Unidos, eleva esse valor para US$ 10 milhões em
medidas de segurança por pessoa afetada pelos projetos que licencia. Para Austrália,
Abelson (2003) recomenda que cada ano de vida seja avaliado em $108,000,
como taxa de desconto de 3% ao ano, em função da relação entre idade e
rendimento.
Na área de saúde a discussão acerca do VSL envolve as decisões de incorporação de medicamentos e a grande questão a ser respondida é: quanto a sociedade está disposta a gastar para cada ano de vida salvo?
Desde a década de 1970 inúmeros
pesquisadores buscaram responder a essa questão. Algumas agências
reguladoras têm utilizado a sugestão da Comissão de Macroeconomia e Saúde
da Organização Mundial da Saúde, que em 2001, publicou um estudo nos qual
os pesquisadores sugeriram que VSL poderia ser baseado no PIB per capita do
país e que o valor fosse ajustado à qualidade de vida. O limiar sugerido para intervenções que evitem um DALY (anos de
vida perdidos ajustados para incapacidade - DALY, do inglês disability-adjusted
life years) ou QALY/AVAQ (anos de vida perdia ajustado à qualidade) foi de menos de 1 PIB
per capita do país para intervenções que sejam consideradas muito
custo-efetivas e de até 3 PIB
per capita ainda para aquelas que sejam consideradas custo-efetivas.
No Brasil, não há definição e consenso acerca desses valores.
colisão.
Até 1978 várias
pessoas morreram ou sofreram graves danos em decorrência de acidentes e
explosões envolvendo o Ford Pinto. A questão da falha do design era assunto
corriqueiro, mas a Ford, que conhecia o problema não o corrigia, pois
estimava que gastaria cerca de 11
dólares/carro para melhorar as condições de segurança do veículo, o que
significava que gastaria cerca de 137 milhões de dólares. Já em
indenizações, a Ford estimava gastar cerca de 49 milhões de dólares, pois
considerou que um determinado percentual de consumidores morreriam ou
teriam graves incidentes com o carro. Entretanto, os cálculos da Ford
estavam errados, pois as estatísticas de mortes se referiam aos carros
existentes no mercado e não ao problemático Ford Pinto.
Outro erro de
cálculo dos administradores da Ford foi em relação ao valor da indenização das
vitimas. A Ford a estimou em até US$ 200 mil, entretanto em 1978, a empresa foi
condenada a indenizar a família Grimshaw em 127,5 milhões de
dólares. Após essa condenação e algumas reportagens , sendo a mais emblemática na Revista Mother Jones, acerca das falhas do
veículo, a Ford decidiu fazer um recall do Ford Pinto de 1,4 milhões de unidades do Ford Pinto. A empresa norte-americana foi acusada de homicídio doloso em processo envolvendo a morte de outras três mulheres que morreram queimadas no veículo, porém o júri absolveu a Ford. Enfim, a Ford gastou muito mais do que se tivesse realizado as alterações e recall assim que foram detectadas anomalias no projeto.
Richard Posner,
a partir do caso Ford Pinto, cunhou o termo eficiência econômica da
negligência para se referir à situação na qual os administradores conhecem
um defeito de fabricação e, após realização de cálculo custo-benefício, decidem
assumir o risco de matar e ferir consumidores.
Valor da vida nos tribunais do Brasil:
Nos tribunais do
Brasil, de modo geral, os valores das indenizações a vitimas ou familiares,em
casos envolvendo danos à saúde ou morte, variam bastante. Em um caso de morte
dentro de escola (Recurso Especial 860.705 ,
a 2ª Turma do STJ, fixou a indenização em 300
salários mínimos. No caso de morte de um diretor de presídio, o Estado foi
condenado a indenizar a família em 1.300
salários mínimos.
No caso do avião da Chapecoense, que envolveu a morte de 71 pessoas entre atletas, equipe e jornalistas, aproximadamente, 20 famílias fecharam acordo com o clube e receberão, de forma parcelada, o valor aproximado de 14 milhões de reais. Os genitores do jogador Tiago da Rocha Vieira, vítima fatal do acidente, receberam os seguintes valores: R$ 80 mil reais por danos morais ao pai do jogador e R$ 50 mil reais de pensão mensal para a mãe do jogador.
No caso do avião da Gol - 1907, atingido pelo jato Legacy, com 154 mortes, houve acordo com muitas famílias e o valor das indenizações das vitimas e familiares variou entre R$100 mil e R$1,5 milhão. . Um dos casos que seguiu até o final do processo, condenou a companhia aérea a pagar aproximadamente 8 mil reais mensais para a menina Luiza, que, na época do fato, contava com apenas 04 (quatro) anos de idade, e que teve seu pai morto. Entretanto, nos EUA e Europa o valor de indenização em casos de acidentes aéreos, muitas vezes, alcança valores superiores a US$ 1 milhão por passageiro.
No caso do avião da Gol - 1907, atingido pelo jato Legacy, com 154 mortes, houve acordo com muitas famílias e o valor das indenizações das vitimas e familiares variou entre R$100 mil e R$1,5 milhão. . Um dos casos que seguiu até o final do processo, condenou a companhia aérea a pagar aproximadamente 8 mil reais mensais para a menina Luiza, que, na época do fato, contava com apenas 04 (quatro) anos de idade, e que teve seu pai morto. Entretanto, nos EUA e Europa o valor de indenização em casos de acidentes aéreos, muitas vezes, alcança valores superiores a US$ 1 milhão por passageiro.
No caso TAM-3054, que envolveu 199 vítimas fatais, ocorreu uma conciliação judicial entre as partes, em que se firmou acordo no sentido de que a empresa Airbus pagaria aproximadamente R$ 30 milhões para as famílias de 33 (trinta e três) vítimas do acidente. Contudo, com os custos processuais, as famílias receberão cerca de 200 mil reais, sendo impossível afirmar que uma vida humana vale tão pouco.
Por fim, cabe-me sugerir que os
valores apurados por Pereira e Oliveira (2018) sejam utilizados para nortear as
decisões de fixação de indenização de vitimas de acidentes no Brasil. Você, meu
leitor, provavelmente concorda com a afirmação de que uma vida não tem preço e, talvez, considere difícil atribuir um valor à sua vida, entretanto, muitas
vezes, é necessário refletir sobre custos e consequências para tomar decisões
ou implementar políticas públicas.
LITERATURA SUGERIDA:
ALDY, J. E.; VISCUSI, W.
K. Adjusting the Value of a Statistical Life for Age and Cohort Effects. The
Review of Economics and Statistics, v. 90, n. 3, p. 573–581, 22 jul. 2008
ANDERSSON, H. and N. Treich. The
Value of a Statistical Life. in Handbook in Transport
Economics, de Palma, A., R. Lindsey, E. Quinet and R. Vickerman
(eds.) Edward Elgar, UK, 2011, p.396-424.
KAHNEMAN, Daniel; Tversky, Amos Prospect
Theory: An Analysis of Decision under Risk . Econometrica, 47,
2 (março de 1979), p. 273.
KNIESNER, T. J. et al. The Value of
a Statistical Life: Evidence from Panel Data. The
Review of Economics and Statistics, v. 94, n. 1, p. 74–87, 29 set. 2011.
MOORE, M. J. and W. K. Viscusi . The
quantity adjusted value of life. Economic Inquiry, v. 26,
1988, p. 369-88.
ROBINSON LA, Hammitt JK, Chang AY,
Resch S. Understanding and improving the one and three times GDP per capita
cost-effectiveness thresholds. Health Policy Plan
2017; 32:141-5
THALER, R.; ROSEN, S. The Value of
Saving a Life: Evidence from the Labor Market. [s.l.] National
Bureau of Economic Research, Inc, 1976. Disponível em:
<https://econpapers.repec.org/bookchap/nbrnberch/3964.htm>
VISCUSI, W. K. The Value of Life:
Estimates with Risks by Occupation and Industry. Economic Inquiry, v.
42, n. 1, p. 29–48, 1 jan. 2004.
WHO. World Health Organization.
Macroeconomics and health: investing in health for economic development. Report
of the Commission on Macroeconomics and Health. Geneva: World Health
Organization; 2001.
NOTA
** para mais detalhes veja o metódo de custo-beneficio em livros de avaliação econômica em saúde



uma coisa que me deixou confuso foi no calculo do valor de uma vida , pois eu entendi que ela varia do risco do emprego e tal , mas é levado em conta quanto tempo em média uma pessoa vive?
ResponderExcluirOla! muito bom esse texto! Minha dúvida é se utilizo o VE Vida não preciso usar uma taxa de desconto, certo?
ResponderExcluira taxa de desconto deve ser aplicada aos custos e benefícios.
ExcluirApós calcular o VSL pode-se mensurar o valor de cada ano de vida (VSLY), e deve se levar em consideração que a expectativa de vida do local e aplicar uma taxa de desconto de 3% ao ano (Moore e Viscusi, 1988). A diretriz de Avaliação Econômica de Tecnologias de Saúde adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil recomenda a taxa de desconto de 6% ao ano.
Ou seja, se aplicarmos o valor de 4 milhões por vida humana, multiplicando pelo número de mortos de COVID-19, já passamos de um trilhão de reais em vidas perdidas.
ResponderExcluir