domingo, 14 de outubro de 2018

Capital de giro e administração do ativo circulante

"Os bens de um comerciante não lhe dão rendimento nem lucro até que os venda por dinheiro, e esse dinheiro de nada lhe serve senão quando novamente trocado por mercadorias. O seu capital sai continuamente sob uma forma, voltando de novo sob outra, sendo esta circulação, estas trocas sucessivas, que lhe trazem lucros. Este capital pode portanto muito propriamente denominar-se ‘capital circulante’. É este o conjunto de valores que, no dia a dia do negócio, permite o pagamento de dívidas, constituindo, sem dúvida, o grupo mais importante de rubricas em qualquer balanço. Pode, pois, dizer-se que o ativo corrente consiste naqueles valores que na evolução normal do negócio, pelos sucessivos passos de compra, produção e venda, se vão rotativamente transformando em dinheiro, permitindo o pontual pagamento de dívidas”.

Adam Smith (1776) - Riqueza das Nações

Entre os principais componentes da estrutura financeira de uma empresa estão o nível de investimento em ativo circulante e o de financiamento em passivo circulante.  A administração de curto prazo é uma das atividades que mais consome tempo do administrador financeiro. As decisões financeiras de curto prazo, em geral, envolvem entradas e saídas de caixa que ocorrem em um ano ou menos. ativo circulante é composto pelo caixa e por outros ativos que se espera converter em caixa durante o ano.

Segundo Gitman (2013), o objetivo da administração financeira de curto prazo é gerenciar cada elemento do ativo circulante (estoques, contas a receber, caixa, etc) e de seu passivo circulante (contas, despesas, empréstimos a pagar) para atingir um equilíbrio entre rentabilidade e risco que contribua positivamente para o valor da empresa.  

Neste texto abordaremos dois elementos fundamentais para a administração financeira de curto prazo: capital de giro, caixa.



CAPITAL DE GIRO:


O gerenciamento do capital de giro é um componente importante da gestão financeira corporativa, pois afeta diretamente a lucratividade das empresas. Para Sagner (2014, p. 8) o estudo acadêmico sobre capital de giro foi neglicenciado durante muito tempo. Entretanto com a crise econômica de 2008 mostrou a necessidade de mais estudos sobre este tema, pois as empresas tiveram que encontrar meios de aumentar a lucratividade, cortar custos e sobreviver.

O capital de giro é constituído, em grande parte, por ativos monetários, e uma parte por ativos de menor liquidez, tais como estoques e contas a receber.

De acordo com Weston e Brigham (2000) a expressão capital de giro originou-se com o mascate ianque que, percorrendo com uma carroça, vendia seus artigos. Ele geralmente possuía a carroça e o cavalo (patrimônio), e tomava emprestados (passivo circulante) os recursos para a compra das mercadorias (estoque), ou seja fazia o financiamento do seu capital de giro. Esses recursos precisavam ser restituídos após cada viagem. Mediante a capacidade de restituição apresentados pelo mascate o banco avaliava novas condições de empréstimos. 

Em função de problemas semânticos não é possível precisar quando surgiu o termo capital de giro, working capital em inglês. Em 1776, Adam Smith escreveu sobre as três formas de capital existentes: capital de consumo imediato , capital circulante, e capital fixo. Na citação em epígrafe, Adam Smith usou o termo capital circulante para se referir ao que hoje denominamos capital de giro.  Em 1917, Lough escreveu que uma empresa deve ter "Capital de Giro suficiente para cuidar do processo normal de compra de matérias-primas e suprimentos, produção de produtos acabados, venda dos produtos. e aguardando que os pagamentos sejam feitos. Se as estimativas originais de capital de giro forem insuficientes, algumas medidas de emergência devem ser usadas ou a empresa ficará parada ”(Lough, 1917, p. 355). Um dos primeiros livros-texto a tratar exclusivamente de capital de giro foi escrito, em 1976, por Michael Firth.  

O conceito de capital de giro difere ligeiramente entre os autores dos principais livros textos da área de finanças corporativas. O capital de giro é um dos termos mais incompreendidos na terminologia da contabilidade e não parece ser uniforme hoje (Kulshreshtha & Jha, 2009, p. 82). 

Gitman (2013) conceitua capital de giro como a porção do investimento que circula na condução normal dos negócios, sendo que o ativo circulante comumente é chamado de capital de giro, o qual está associado à tomada de decisões financeiras de curto prazo. Já para Assaf Neto (2013) o conceito de capital de giro envolve a identificação dos recursos que giram (circulante) em determinado período.

Assim, para Sagner, a visão mais recente é que o capital de giro é indesejável na medida em que constitui um empecilho ao desempenho financeiro. A crise mostrou a necessidade de considerar que os ativos correntes que não contribuem para o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) prejudicam o desempenho da empresa e podem ocultar estoques obsoletos que podem não ser vendidos ​​e as contas a receber podem não ser recebidos, ou seja, são simplesmente uma expectativa de caixa futuro, como alertam Lemes Junior, Rigo e Cherobim (201?)

Sagner (2014) ainda adverte que atualmente o gestor financeiro deve preocupar-se com a redução das
contas correntes de ativos, a ponto de que os passivos possam ser financiados a partir das operações contínuas do negócio.

Embora capital de giro e capital circulante líquido sejam confundidos por apresentarem o mesmo valor, as contas envolvidas são diferentes (Gitman, 2013). A falta de clareza ou mal-entendidos em relação à aplicação de capital de giro pode ser justificada pelo fato de não haver uma classificação correspondente de capital de giro no balanço patrimonial (Meyer, 2007, p. 22). Assim Ross et al (2015) chamam de capital circulante líquido a diferença de valores entre ativo circulante e passivo circulante, e é essa diferença que exige financiamento de recursos obtidos fora das operações da empresa, no capital de giro. Enquanto o capital circulante líquido é uso de recursos, o capital de giro é fonte de recursos para as operações circulantes. A origem do capital de giro está no passivo não circulante e no patrimônio líquido.

O Capital Circulante, que tem também outras denominações, como Capital de Giro e Ativo Circulante, representa o valor dos recursos aplicados pela empresa para movimentar seu Ciclo Operacional, que compreende o espaço de tempo que vai desde a entrada da matéria-prima no estoque da empresa até a venda dos produtos elaborados e respectivo recebimento.

Em termos gerais, o capital de giro pode ser dividido em dois conceitos: Capital de Giro Bruto e Capital de Giro LíquidoO Capital de Giro Bruto refere-se ao ativo circulante no balanço patrimonial e é considerado por alguns autores como sinônimo do Índice de Capital de Giro. De acordo com Assaf Neto (2013),   a forma mais direta de obter-se o valor do capital de giro líquido é mediante a subtração entre ativo circulante e o passivo circulante, tal que CGL(CCL) = AC - PC


As equações abaixo são as mais importantes no que se refere ao capital de giro
Identidade básica do balanço patrimonial
Capital circulante líquido + Ativo não circulante = Passivo não circulante + Patrimônio líquido

Caixa = (Passivo não circulante + Patrimônio líquido + Passivo circulante) - (Outros ativos circulantes + Ativo não circulante)

Capital de giro = (Passivo não circulante + Patrimônio líquido)  – Ativo não circulante

Capital circulante líquido = (Caixa + outros ativos circulantes) - Passivo circulante


O CCL pode assumir valores positivos, negativos e nulos. O CCL é negativo quando os recursos do passivo permanente da empresa não são suficientes para cobrir todas as suas necessidades de investimento de longo prazo. Quando uma empresa apresenta CCL negativo ela incorre em risco de insolvência. De modo genérico, a figura acima representa uma situação hipotética de CCL positivo, pois AC é maior do que PC. 

Gitman (2013) observa que “uma administração ineficiente do capital de giro pode tornar a empresa tecnicamente insolvente, já que não tem condição de pagar suas obrigações nos vencimentos”.

Por que então CCL= CDG?
A necessidade de financiamento das contas circulantes que exceder ao financiamento obtido nas contas operacionais e que não consegue ser atendida pelo CDG deverá ser financiada por empréstimos de curto prazo, deverá ser aportada por empréstimos bancários.

Gitman (1997) salienta “que é ideal que a empresa tenha ativo circulante suficientemente considerável de modo a cobrir seus passivos circulantes, garantindo-se com isso margem razoável de segurança”. Essa diferença entre ativo circulante e passivo circulante é denominada Capital de Giro Liquida (CCL).


Características do Capital de Giro
- é igual ao capital circulante líquido
- volatilidade
- divisibilidade entre contas
- é constituído em grande parte por ativos monetários
- não gera diretamente unidades físicas de produção ou vendas

Uma importante característica do capital de giro é seu grau de volatilidade, que é explicado pela curta duração de seus elementos e constante mutação dos itens circulantes. Outra característica é a divisibilidade dos elementos circulantes.

Mensurando o Capital de Giro:
O nível e a importância do capital de giro variam em função das características de atuação de cada empresa, do desempenho da conjuntura econômica, e da relação risco e rentabilidade desejada.

Uma empresa que tenha um maior nível de capital de giro líquido terá um menor risco de insolvência, entretanto,  em contrapartida a lucratividade da empresa é prejudicada.  Uma empresa que enfrenta dificuldades em função de lhe ser exigido pelo mercado prazos maiores de financiamento das vendas e prazos menores de financiamento de suas compras terá que aportar mais recursos permanentes para garantir o funcionamento do negócio. Tal exigência não necessariamente virá acompanhada de maiores retornos. 

Como mostra a figura abaixo, o volume de capital de giro pode sofrer alterações ao longo do ano. Assim, no capital de giro há um componente sazonal e outro permanente. 

O capital de giro permanente é  o montante minimamente demandado e que não se altera com os meses ao longo do ano (Assaf Neto, 2013). Este conceito se opõe ao capital de giro sazonal que  surge em função de períodos nos quais a empresa é mais demandada, por exemplo nas épocas festivas as empresas do ramo alimentos, de brinquedos, e de vestuário  aumentam seus estoques e adotam práticas comerciais diferenciadas, tais como a ampliação prazos de pagamentos, de forma a expandir as suas vendas e lucratividade. 

Por exemplo, se a empresa vende $60 mil/mês a prazo, e costuma receber, em média em 45 dias, manterá necessariamente um investimento minimo determinado por seus negócios igual a $90 mil em valores a receber; do mesmo modo, o estoque minimo necessário para manutenção das atividades normais da empresa é um investimento em capital de giro permanente. 

Como regra geral, para  Assaf Neto (2013), as empresas deveriam  procurar financiar o capital de giro permanente com recursos permanentes (longo prazo) e o capital de giro sazonal com recursos de curto prazo. 

Como você pode perceber é um importante que o administrador financeiro entenda o ciclo de conversão de caixa e os demais ciclos empresariais para promover a gestão financeira de curto prazo. 

CICLOS EMPRESARIAIS
Assaf Neto e Silva (1997) classificam os ciclos empresariais em (a) operacional, (b) econômico, (c) financeiro

Considere uma empresa onde as mercadorias permaneçam 42 dias em estoque, com uma média de recebimento de clientes igual a 60 dias sendo o pagamento a fornecedores em 30 dias. Teremos os seguintes valores para o cálculo dos ciclos como exemplo:
Idade Média do Estoque (IME) = 42 dias
Prazo Médio de Contas a Receber (PMCR) = 60 dias
Prazo Médio de Pagamento a Fornecedores (PMPF) = 30 dias

Ciclo Operacional (CO) é o período de tempo que vai do começo do processo de produção até o recebimento de caixa resultante das vendas do produto acabado.

CO: Idade  Média do Estoque + Prazo Médio de Recebimento
CO = 42 + 60 = 102 dias

Ciclo Financeiro ou de conversão de caixa representa o prazo pelo qual os recursos da empresa ficam aplicados. 
CCC= Ciclo Operacional - Prazo Médio de Pagamento

CCC = (Idade Média do Estoque + Prazo Médio de Recebimento) - Prazo Médio de Pagamento.

Suponha que a empresa X tenha estoques com idade média de 60 dias, demore 40 dias para receber suas vendas , e pague seus fornecedores em 35 dias. Substituindo na equação acima temos:
(42 + 60) - 30 = 72

Ciclo Econômico:  é o tempo em que a mercadoria permanece em estoque. Vai desde a aquisição dos produtos até o ato da venda, não levando em consideração o recebimento das mesmas (encaixe).

CE: Idade Média do Estoque
CE=42

Conhecendo os ciclos  e indicadores operacionais da empresa o administrador financeiro pode estabelecer meta para o ciclo de conversão de caixa e monitorá-los para o aprimoramento dessa meta, apesar da famosa pérola dilmesa dizer que existe meta aberta.  Diante da meta, o administrador pode traçar estratégias de gestão do ciclo de conversão de caixa, tais como:
1 - girar o estoque mais rapidamente possível
2 - cobrar as contas a receber mais rapidamente possível
3 - gerir as contas a pagar para pagar o mais lentamente possível.

Componentes do Gerenciamento de Capital de Giro
Contas a Receber: Contas a receber representa o valor que os clientes têm que pagar à empresa em uma base atual e estão relacionados com as atividades operacionais. 

Prazo médio de recebimento:  segundo Padoveze (2010, p. 214), “este indicador tem por objetivo dar um parâmetro médio de quanto tempo em média a empresa demora para receber suas vendas diárias" . Este indicador é objetivo através do seguinte cálculo: PMR = (contas a receber x 360) / Receita Operacional Bruta

O resultado do cálculo indicará o prazo médio de recebimento em dias. Quanto menor o número de dias, mais rápido a empresa recebe seus direitos

Estoques: os estoques são formados por  bens ou materiais que aguardam para serem vendidos e convertidos em dinheiro no curto prazo. Mais investimento em estoques significa mais caixa amarrado esperando gerar retornos. O aumento de estoque  pode levar a um maior número de dias de estoque. maiores custos de armazenamento físico e de gerenciamento de estoque; e consequentemente maior exposição a riscos. 

Idade média do estoque: indica o tempo médio para a renovação dos estoques é o prazo médio de estocagem. O cálculo é dado por: IME = (estoque x 360) / custo das mercadorias vendidas

Contas a pagar: representam uma obrigação de pagar em um período de curto prazo. Normalmente, refere-se a transações com fornecedores nas atividades operacionais que ainda não foram pagas. Eles correspondem ao valor devido aos fornecedores, a partir do momento em que a empresa recebe os bens / serviços e termina no exato momento em que a empresa paga por esses bens / serviços.

Prazo Médio de Pagamento: mostra o prazo médio que a empresa consegue pagar seus fornecedores de materiais e serviços ( PADOVEZE , 2010, p. 215). O cálculo é dado por: PMP = (contas a pagar x 360) / compras brutas de materiais e serviços

O resultado do cálculo indicará o prazo médio de pagamento em dias. Quanto maior o número de dias,  melhor para a situação financeira da empresa. 

Caixa:  O estabelecimento de um nível ótimo de recursos em caixa, geralmente parte do princípio de retardação ou dilatação do prazo de pagamento das obrigações e da antecipação nos recebimentos.

CAIXA

A determinação do nível apropriado de saldo de caixa não é apenas necessária para otimizar a utilização de caixa, mas também para decidir o nível de investimento em títulos negociáveis. Essa tarefa é tão importante que a realização de excesso de caixa implica perda de receita de juros para a empresa e, portanto, baixa rentabilidade e a manutenção de um pequeno saldo de caixa torna a posição de liquidez fraca, embora tenhamos garantido maior rentabilidade. Assim, a determinação do nível adequado de retenção de caixa envolve compensação de risco e retorno.
Determinação do nível de caixa
Keynes em Teoria Geral do Emprego, Juros e da Moeda, em 1936, identificou três motivos que levam as empresas a manterem determinado nível de caixa:

1 - motivo transação: a necessidade de manter reservas de liquidez para atender as necessidades normais de desembolso e financiamento do prazo de cobrança associadas às operações de funcionamento da empresa.


Baumol (1952) e Miller e Orr (1966) aprofundaram o estudo do motivo transacional e mostraram que os custos transacionais explicam o nível de caixa das empresas. Estes custos de transação estão associados com a conversão de ativos financeiros não-caixa em caixa com o objetivo de cumprir com suas obrigações de pagamento, o que permite derivar modelos de nível ótimo de caixa com base no volume de transações.

2 - motivo precaução:  as empresas mantêm um nível de caixa como segurança para se protegerem de cenários adversos, nos quais o acesso ao mercado de capitais tem custo elevado

3 - motivo especulativo : empresas mantêm excesso de liquidez para aproveitar oportunidades de investimento lucrativas

Ao longo dos anos outros teóricos contribuíram para a identificação de outros motivos que podem influenciar na determinação do nível de caixa. James Tobin (1958) apresentou em seu artigo Liquidity preference as behavior towards risk duas razões pelas quais as empresas guardam dinheiro: a) pela inelasticidade das taxas de juros e b) pelo comportamento de aversão ao risco. Tobin afirmou que não importa a oscilação das taxas de juros no tempo que a administração financeira não sofrerá alterações e o saldo de caixa permanecerá igual. Tobin ainda considerou que os investidores podem ter outras combinações de ativos e não apenas dinheiro. Em relação ao  comportamento de aversão ao risco, Tobin diz que quanto maior o risco assumido, maior será o retorno exigido pelo investimento.

- motivo Tributário está relacionado a empresas multinacionais com afiliadas localizadas em países em que a carga tributária incidente, por exemplo, sobre repatriação de recursos é elevada, podem preferir manter elevados níveis de caixa a repatriá-los

 - motivo Conflitos de Agência é defendido por Jensen (1986) que argumenta que os gerentes das empresas estão menos dispostos a aumentar os dividendos aos acionistas, preferindo acumular caixa mesmo quando a empresa não possui boas oportunidades de investimento. 

Vale destacar que os primeiros modelos de administração de caixa propostos partiam do conhecimento prévio dos montantes de desembolsos e entradas no caixa, em face dessas características estes modelos foram chamados de modelos determinísticos.

Modelo de Baumol: adaptação do modelo de lote econômico
Em 1952, William Baumol iniciou os estudos no desenvolvimento de instrumentos que reduzem os custos de caixa. Ele adaptou o comportamento dos fluxos ao Modelo de Lote Econômico, utilizado na administração de estoques, considerando dinheiro com mercadoria. Baumol considerou que existem entradas periódicas de dinheiro no caixa e saídas constantes (contínuas) de recursos.O modelo, em linhas gerais, efetua uma análise do custo associado à manutenção de dinheiro em caixa, ou seja, o custo de oportunidade determinado pelos juros que a empresa deixa de ganhar ao não aplicar esses recursos em títulos negociáveis (aplicações de curto prazo), e do custo de obtenção do dinheiro pela conversão de títulos negociáveis em caixa. 
Premissas: 
Este modelo parte premissa de que a parcela do dinheiro investido a curto prazo proporciona um ganho na forma de juros, e que cada operação de investir/desinvestir implica em um custo (desde impostos de transações financeira até o custo do tempo que o funcionário leva para fazer a operação de ligar para o banco e solicitar a transferência de recursos da conta de investimentos). 

Cálculo: 
A despesa incorrida para se obter ativos líquidos b é associada ao custo de preparação; as taxas de juros não recebidas por manter os ativos em caixa i, ao custo de capital estocado; e a demanda por dinheiro anual T, é associada à demanda por suprimentos. 

C = raiz quadrada (2 x b x T )/ i
 C= raiz quadrada (2 x custo de preparação x demanda anual por dinheiro) / taxa de juros

A variável C representa o montante de dinheiro a se transferido para o caixa em intervalos iguais no ano. O ano é dividido em períodos iguais. A cada início do período, a empresa deve repor o caixa na quantidade indicada por C, de acordo com a demanda anual T (valor líquido recebimentos - pagamentos)

Exemplo:

Considere que a empresa Florzinha do Campo tem um custo fixo da renovação dos saldos de caixa de $45 por cada transação . A taxa de juros é de 3,5% . A necessidade  anual de fluxos de saída de caixa é $400.000. Qual é o nível ótimo de caixa inicial ? Qual é o custo total?

O nível de caixa ótimo será C = raiz quadrada (2 x 45 x 400.000) / 0,0035 = 32.071,35

0 saldo médio é dado por C/2 => 32.071,35 / 2 = 16.035,70

O custo de
O custo por transação é : 16.035,70 x 0,035 = 561,25

Número de reposições de caixa: 400.000/32.071,25 = 12,5 transações

Agora que sabemos o número de transações que serão realizadas, bem como o custo por transação, podemos calcular o custo total:

O custo total financeiro será: 45 (custo por transação) x 12,5 (n. transações)  x 561,25 (custo por transação)= 1.122,50


O modelo de Baumol Talvez seja o ais simples para a determinação do nível de caixa ótimo. Seu principal ponto fraco é que ele assume que as os fluxos de saída de caixa são exatos e constantes. A seguir apresentamos  um modelo que considera a imprevisibilidade dos fluxos. 

Modelo de Miller e Orr: imprevisibilidade
Miller e Orr foram os primeiros a admitir a imprevisibilidade ou aleatoriedade das entradas e saídas de caixa, pois consideravam que os ingressos e dispêndios ocorriam com certa probabilidade, em um determinado intervalo de tempo e dentro de certos limites. O modelo busca  otimizar os saldos de caixa, considerando que as entradas e saídas de caixa oscilam aleatoriamente de um dia para outro. O modelo de Miller-Orr mostra que quanto maior a incerteza/variância, maior será a diferença a diferença entre o saldo meta e o saldo mínimo. De modo semelhante, quanto maior a incerteza, maior será o limite superior e o maior será o saldo médio de caixa. 

O modelo fornece os saldos de caixa para transação que minimizam os custos de sua manutenção, determinando tanto um limite superior (U*), um limite inferior (L) e uma meta para o saldo de caixa (C*), estabelecendo um ponto de retorno a ela. Desde que o saldo de caixa esteja em algum ponto entre U* e L, nada acontece.

Quando o saldo de caixa atinge o limite superior (U*) a empresa retira U* - C reais da conta e transforma em aplicações financeiras. Essa ação traz o saldo de volta ao nível C*. Do mesmo modo, se o caixa cair até o limite inferior (L) a empresa resgatará C* - L e aplicações financeiras e depositará o dinheiro na conta.. 
Cálculo:
Caixa ótimo
C* = L + (3/4 x F x variância /i) ^1/3
Limite superior
U*= 3 x C* - 2 x L

Saldo médio de caixa: (4 x C* - L) / 3
onde:
 L saldo minimo de caixa, definido pela empresa; F custo por transação  ; C* caixa ótimo; i taxa de juros,;U* limite superior


Exemplo:

Suponha que o custo por transação F= $10, L=$100, a taxa de juros de 1% ao mês, desvio padrão do fluxo de caixa seja de $200.  A variância do fluxo de caixa é dada por: var=dp^2= 200^2 = 40.000

C* = L + (3/4 x F x var /taxa de juros) ^1/3
C*= 100 + (3/4 x 10 x 40.000/0,01) ^1/3
C*= 100 + 30.000^1/3
C* = 100 + 311 = $411

Assim, o limite superior U* é:
U* = 3 x C* - 2 x L
U* = 3 x 411 - 2 x 100
U* = 1.033

Por fim, o saldo de caixa médio será:

= (4 x C* - L) /3
= (4 x 411 - 100)/3
= 515


Implicações dos Modelos de Baumol e Miller-Orr 
Os dois modelos diferem em complexidade, mas têm algumas implicações semelhantes, tais como:
1 - quanto maior for a taxa de juros, menor será a meta para o saldo de caixa
2 - quanto maior for o custo de transação, maior será o saldo meta. 


REFERÊNCIAS:
BAUMOL, WILLIAM J. The transactions demand for cash: an inventory theoretic approach. Quaterley Journal of Economics, Nov. 1952 Firth, M. (1976). Management of Working Capital. The Macmillan Press Limited. London.
Lough, W.H. (1917). Business Finance: A practical study of financial management in private business concerns. New York.
Meyer, C.A. (2007). Working Capital and Corporate Value. New York.
MILLER, M. H. ORR, Daniel. A model of the demand for money by firms. Quartely Journal of Economics, Aug. 1966.
PADOVEZE, Clóvis Luís. Contabilidade gerencial: um enfoque em sistema de informação contábil. 7ª ed. São Paulo: Atlas, 2010
Van Horne, J.C. & Wachowicz J. (2008). Fundamentals of Financial Management. Pearson; 13th edition.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Oficina: Introdução à Avaliação Econômica de Medicamentos

O Programa de Pós-graduação em Economia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) promove a oficina de Introdução à Avaliação Econômica de Medicamentos.

O que é farmacoeconomia? 
Farmacoeconomia é uma sub-área da Economia da Saúde.
Os estudos de Farmacoeconomia buscam descrever, analisar e comparar os custos e as consequências das terapias medicamentosas para os pacientes,  com o objetivo de identificar produtos e serviços farmacêuticos cujas características possam conciliar as necessidades terapêuticas com as possibilidades de custeio.   Os estudos farmacoeconômicos associam conceitos clínicos de eficácia, segurança e qualidade de vários procedimentos envolvidos no cuidado à saúde, com medidas de custo econômico com o objetivo de selecionar opções mais eficientes. Apesar do termo "fármaco" na sua nomenclatura, esta apresenta ferramentas que podem ser igualmente utilizadas para a avaliação de medicamentos, programas de saúde, equipamentos médicos e até sistemas administrativos, sempre considerando as características intrínsecas de cada um.

As pesquisas da área de farmacoeconomia surgiram na década de 1970 quando vários países  enfrentavam problemas financeiros causados pelo crescimento das despesas públicas com saúde. Assim, alguns pesquisadores, como McGhan, Rowland, e Bootman, da University of Minnesota,  iniciaram um movimento no sentido de racionalizar a terapêutica farmacológica, usando critérios de análise comparativa entre custos e avaliação de qualidade dos produtos, surgindo assim os conceitos de custo-benéficio e custo-efetividade. 

Objetivo do curso:
O objetivo  do curso é o de apresentar as principais técnicas de avaliação econômica em saúde e sua aplicação nas decisões de incorporação e uso de tecnologias de saúde.

CONTEÚDO:

No evento serão discutidas as seguintes temáticas: • Mercado de trabalho em farmacoeconomia • Técnicas de avaliação econômica de medicamentos • Farmacoeconomia: dos ensaios clínicos até a incorporação dos medicamentos nos sistemas de saúde. • Técnicas de custeio em estudos de avaliação econômica de tecnologias de saúde 

LOCAL E DATA:
O evento ocorrerá no dia 29 de outubro de 2018, das 13:00 às 16:00, no Instituto de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis (ICEAC), no Campus Carreiros, em Rio Grande.
Sala: 4204 - Pavilhão 4 - ICEAC 

PÚBLICO-ALVO O público-alvo do evento é formado por pesquisadores atuantes nas áreas de economia da saúde; estudantes de economia, administração, farmácia, saúde coletiva, epidemiologia, e medicina; profissionais atuantes na área de saúde. Podem participar pessoas com qualquer formação superior.

PALESTRANTE
A palestrante, Profa. Dra. Marcia Regina Godoy, é professora visitante no ICEAC e, desde 2007 ela faz orientação mercadológica, precificação, e avaliações econômicas de medicamentos e outras tecnologias de saúde desde a fase de ensaio clínico até o lançamento para empresas de vários países.

INSCRIÇÃO: O evento é gratuito e não são exigidos pré-requisitos dos participantes.

Faça a sua pré-inscrição aqui


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O primeiro Crash Financeiro

Em 1711, o governo inglês pegou um empréstimo de 11 milhões de libras com a South Sea Company. Em troca, a empresa conseguiu juros de 6% ao ano. Em 1713, com o fim da fim da Guerra de Sucessão Espanhola (1702-1713), a South Sea obteve o direito exclusivo do comércio com a América do Sul Espanhola, que tinha sido acordado no Tratado de Utrecht (1713). 

Infelizmente, a realidade da época é que o fluxo de bens com a América do Sul, seu principal objetivo, era praticamente inexistente e o que restava era o comércio de escravos. A South Sea Company foi contratada pelos espanhóis, nos termos do acordo Asiento, para importar 4.800 peças (escravos) anualmente. 

A despeito dos ganhos modestos, os gestores da  South Sea Company estavam interessados  em arrecadar mais dinheiro com a venda de seus papéis na Bolsa.  Desta forma, a companhia resolveu vender ações e continuou a convencer políticos e investidores que os seus negócios eram rentáveis.  Graças às ações de lobby junto ao parlamento inglês, até 1720, a empresa tinha tomado empréstimos na ordem de 43 milhões de libras.  Assim, as ações da empresa ganharam uma dimensão inusitada, alimentadas por pura especulação.  

A especulação econômica que se gerou ao redor dessa empresa fez com que os títulos de comércio se multiplicassem por nove no primeiro semestre de 1720.  Entre janeiro e junho de 1720, o valor das ações passou de 128 para 1028 libras. Cabe destacar que, John Blunt e outros diretores da South Sea, durante o período de valorização das ações,  fizeram uma gestão fraudulenta e manipularam o mercado, procurando lucrar emitindo ações para eles mesmo e utilizando-as como garantia de empréstimos. Conforme realizavam os ganhos de capital, a partir do aumento dos preços das ações, usavam o caixa para compra de imóveis e outros bens tangíveis. 

Em 1720, quando o título da South Sea começou a dar os primeiros sinais de instabilidade, os gestores da empresa informaram aos investidores que passariam a distribuir 50% dos resultados, sob forma de dividendos. Todavia, alguns meses mais tarde, anunciaram que não seria possível manter esse nível de payout durante muito tempo. Este fato foi o rastilho suficiente para um movimento massivo (efeito manada), de venda de títulos, e consequentemente o colapso da companhia. Esse movimento iniciou-se quando os representantes de Berna, em 22 de junho de 1720, venderam todas suas ações na South Sea, obtendo um lucro de 660% em comparação ao que haviam aplicado um ano antes.




Em 1720, porém, a bolha de ganhos provocada pelo interesse na South Sea  estourou, provocando profundos impactos para a economia britânica. Alguns diretores da companhia fugiram para outros países e outros foram presos. Milhares de pessoas perderam muito dinheiro, entre elas Isaac Newton que perdeu 20 mil libras. A bolsa de Londres entrou em colapso, levando a quebra de bancos na Inglaterra e outros países, como a Suíça. O governo inglês reagiu proibindo a emissão de ações, medida que foi relaxada somente um século depois, em 1825.


Isaac Newton sobre esse desastre financeiro disse: "posso prever o movimento dos corpos celestes, mas não consigo medir a loucura das multidões". No livro Manias, pânicos e crisesKindleberger e Aliber, mostram que as maiores fraudes e os instantes de loucura coletiva em que milhares de investidores perderam tudo o que tinham. 

No post anterior, vimos que as expedições marítimas contribuíram para o surgimento dos dividendos. Hoje, apresentamos o caso da South Sea que mostra como a gestão fraudulenta na política de dividendos contribuiu para a ocorrência do primeiro crash financeiro no mercado de ações.

Conselho prático: Seja meticuloso na hora de decidir onde investir o seu dinheiro. Análise a saúde financeira da empresa onde pretende investir o seu dinheiro. 

REFERÊNCIAS
CARSWELL, J. The South Sea Bubble. London: Cresset Press, 1960
1960.
Pp.
xii,
314